Conferência do Pe. José
Kentenich, ao se apresentar como diretor espiritual dos seminaristas, em
Schoenstatt, em 27 de outubro de 1912. Nela, ele apresenta o programa de
sua pedagogia, que vai desenvolver na Obra de Schoenstatt.
DOCUMENTO DA PRÉ-FUNDAÇÃO (1)
PROGRAMA
Hoje quero apenas
apresentar-me. — Esta resposta do candidato Yobs provocou uma sacudida geral de
cabeças. Este verso profundo e muito poético duma célebre epopeia (2), pode ser
interpretado de outro modo e, naturalmente, conforme a essência da
interpretação, pode tornar-se ainda mais rico em conteúdo espiritual. Poderia
ser, por exemplo: A notícia da nomeação do novo espiritual provocou retesamento
geral de pescoços. A nomeação do novo espiritual... A expressão «do novo
espiritual» está no caso genitivo objetivo e refere-se à escolha do novo
espiritual. Com isto devo dizer que cumpri também o desejo de Theile (3). Ele me
sugeriu que hoje falasse algo sobre o genitivo. Então, Theile, estás satisfeito
ou queres saber mais ainda?
Mas deixemos de lado a
brincadeira. Estou bem consciente de que a interpretação do verso reflete
claramente a vossa disposição, a vossa atitude contrária à minha nomea-ção.
Estais admirados e desiludidos. Por isso os pescoços ficaram esticados. Mas
deve ser perigoso quando se deixa por muito tempo o pescoço esticado. Pode-se
até ficar com a nuca enrijecida. Foi por este motivo que tratei de pôr logo
minha cabeça e o pescoço em posição normal, e me conformei com o inevitável.
Talvez... E com esta finalidade hoje quero prestar-vos conta sobre:
nossas relações até o momento
presente nossas relações futuras.
Como foram as nossas relações
até o dia de hoje? Di-lo-ei com breves palavras: não mantínhamos nenhum contato
entre nós mutuamente. Passamos um ao lado do outro sem nos chocar ou bombardear
com olhares furiosos. Até aqui não houve nada demais. Por isso não soará de
modo desagradável e indiferente se vos revelar que, por princípio, evitei
travar relações mais estreitas convosco. No ano passado, quando cheguei em
Ehrenbreitstein, o Revmo. Pe. Reitor solicitou-me atender as vossas confissões.
Opus-me com todas as veras, conseguindo finalmente que me deixassem em paz.
(1)
A
prática começa com introdução na qual o Pe. Kentenich, ora gracejando ora falando
sério, faz alusão à surpresa e ao desconcerto produzido por sua nomeação como
Diretor Espiritual
(2)
Poema
épico conhecido pelos jovens, que o Pe. Kentenich aplica humoristicamente para
captar seus interesses.
(3)
Theile
era aluno da 4a
série
que encontrava dificuldades no estudo dos casos da gramática latina. Esta
pequena observação caracteriza o método do Pe. Espiritual que procura captar o
mais depressa possível todos os pontos de contato dos alunos, para criar
mentalidade comum. Durante algum tempo, Theile e seus colegas de classe foram
os únicos que venceram a timidez de falar em público e participaram ativamente
das discussões.
(4) Termo popular para designar
as pessoas que após muito tempo, confessam-se por ocasião da Páscoa da
Ressurreição.
Qual o motivo
que me levou a esta atitude? Não pretendia manter nenhuma relação convosco,
para dedicar todas as minhas forças e o tempo que me sobrasse às pessoas do
mundo, especialmente aos velhos pecadores endurecidos. Queria caçar os assim
chamados cordeiros pascais (4). Minha maior alegria sacerdotal
consistia em acolher os pecadores que se achegavam sobrecarregados com velha
carga de pecados ajuntados durante muitos anos, de maneira que o confessionário
viesse a estourar.
Com certeza,
agora compreendeis o meu modo de agir. Não me esquivei por desprezo ou porque
ignorasse as emoções e necessidades da alma juvenil, ou porque fosse da opinião
que entre estudantes não possa haver abalos espirituais profundos.
Naturalmente, se antes tivesse sido advertido: «este ou aquele está passando
por uma crise interior», ter-me-ia dedicado a ele com muito gosto. Porém, tais
coisas não são reveladas com antecedência. Por isso simplifiquei o caso, não me
incomodando com nada absolutamente.
Apesar de tudo
recebo a nomeação para ser Diretor Espiritual, mesmo sem ter contribuído em
nada para que isto se realizasse. Portanto, há de ser vontade de Deus. Acedo de
bom grado, firmemente decidido a cumprir do modo mais perfeito os meus deveres
em relação a todos e a cada um em particular. Estou inteiramente à vossa
disposição com tudo o que sou e tenho: com meus conhecimentos e capacidades e
com minhas limitações; mas, sobretudo vos pertence o meu coração. Na realização
de minha ideia predileta aplicarei somente o tempo que me sobrar.
Espero que nos
compreendamos bem, envidando todos os esforços para alcançar nosso objetivo do
modo mais perfeito possível.
Qual será,
pois, o nosso objetivo? A pergunta é importante, porque da resposta dependerão
nossas relações futuras. Vou dizê-lo de modo claro e conciso:
Sob a
proteção de Maria, queremos aprender a educar-nos, para sermos sólidos e livres
caracteres sacerdotais.
O
esclarecimento e a realização deste princípio fundamental irão ocupar-nos
durante todo o ano. Hoje darei apenas breve explicação.
Queremos
aprender. Não somente vós, eu também. Aprenderemos uns dos outros, pois nossa aprendizagem nunca há
de cessar, principalmente em se tratando da arte da autoeducação, que é obra de
toda a nossa vida.
Queremos
aprender não somente em teoria, dizendo que isto deveria ser feito assim; agora
está bom ficou bonito, etc. Tal sistema teria pouco valor para nós. Precisamos
aprender também de modo prático, pondo mãos à obra todos os dias e em todas as
horas. Como e que aprendemos a andar? Estais lembrados do modo como
principiastes a caminhar? Ou ao menos, como vossos irmãozinhos o aprenderam? A
mãe ter-vos-á proferido grandes discursos, insistindo: Tom Mariazinha, olhem, é
assim que vocês devem fazer! Se nossa mãe, tivesse procedido desta maneira
ninguém de nós saberia andar. Porém, tudo se deu de modo mais simples, ela nos
tomou pela mão e começamos a caminhar. Andar, aprende-se andando; amar, amando.
Da mesma forma devemos aprender a educar-nos através de constantes exercícios
de autoeducação. Ocasião para isso, certamente não nos falta.
Queremos
aprender a educar a nós mesmos. É atividade nobre e régia. Atualmente a autoeducação ocupa o
centro dos interesses nos círculos mais cultos. Ela e imperativo da religião,
imperativo da juventude, imperativo do tempo. Não entrarei em pormenores
respeito a estes pensamentos, tocarei apenas de leve no último.
A
autoeducação é imperativo do tempo.
Não é
necessário conhecimento extraordinário do mundo e dos homens, para ver que nosso
tempo com todo o seu progresso e suas múltiplas descobertas, não consegue
livrar o homem do vazio interior.
Toda a atenção
e atividade têm por objeto exclusivamente o macrocosmo, o grande mundo - o
mundo fora de nós - Realmente, não cessaremos de admirar o gênio humano que
dominou as poderosas energias da natureza e as colocou a seu serviço. Ele vence
todas as distâncias, sonda as profundezas do mar, perfura as cadeias de
montanhas e voa pelas alturas do espaço sideral. A tendência de pesquisar e
conquistar impulsiona sempre mais para frente. Descobrimos o Polo Norte,
penetramos os continentes desconhecidos, iluminamos nosso esqueleto com novos
raios; o telescópio e o microscópio desvendam diariamente novos mundos.
Porém, apesar
de tudo, há um mundo sempre antigo e sempre novo — o microcosmo — o mundo no
pequeno, nosso próprio mundo interior permanece ignorado e desconhecido. Não
há métodos, ou ao menos, novos métodos que possam iluminar a alma humana.
«Todas as regiões espirituais são cultivadas; todas as faculdades,
fortalecidas. Somente o que há de mais profundo e íntimo, o mais essencial na
alma imortal, muitas vezes é terreno inculto». Tais são as queixas apresentadas
pelos jornais. Por isso nossa época e assustadoramente pobre e vazia no campo
dos valores internos.
Mais, há pouco
tempo, um político italiano apontou como maior perigo do desenvolvimento atual,
o fato de as raças semi-civilizadas apoderarem-se das técnicas da civilização
moderna, sem que ao mesmo tempo lhes seja dada cultura espiritual e moral para
fazerem bom uso destas conquistas.
Neste
particular, prefiro inverter a questão e perguntar- Será que os povos mais
desenvolvidos estão maduros e são capazes de utilizar devidamente os enormes
progressos alcançados nos últimos tempos, nos mais diversos setores? Não é
verdade, que nosso tempo está ainda mais escravizado às suas conquistas?
Realmente. O domínio sobre os poderes e forças da natureza externa não andou
paralelamente a sujeição das tendências mais elementares e instintivas
aninhadas em nosso próprio peito. Essa divergência alarmante esse abismo imenso
torna-se cada vez mais profundo. Colocar- nos-á diante do fantasma da questão
social, diante da falência da sociedade, se omitirmos o empenho por sua reforma
E em vez de dominarmos nossas conquistas tornarmo-nos suas vítimas, como também
escravos de nossas paixões.
Não há
alternativa! Ou avançamos ou retrocedemos.
Retrocedamos!
Então teremos de remotar à Idade Média, arrancar os trilhos, cortar os fios do
telégrafo, rejeitar a eletricidade, devolver o carvão às minas, fechar as
universidades! Não. Jamais consentiremos em tal atitude! Isto não nos é
permitido. Nunca haveremos de agir desta forma.
Por isso,
avante! Avancemos
nas pesquisas e conquistas de nosso mundo interior, através da autoeducação
consciente. Quanto mais progresso exterior, tanto mais' aprofundamento
interno. Este é o brado, a senha difundida por toda a parte, não somente no
campo católico, mas também no setor inimigo. Também nós, de acordo com nossa formação,
queremos incluir-nos nestas aspirações modernas.
No futuro não
nos deixaremos suplantar por nossos conhecimentos, mas nós os dominaremos. Não
haverá de acontecer que dominemos diversas línguas estrangeiras, impostas pelo
programa escolar, e permaneçamos grandes ignorantes no conhecimento e
compreensão da linguagem do coração. À medida que penetramos com visão profunda
nas forças que atuam na natureza, temos igualmente de alcançar maior
compreensão para enfrentar as energias elementares e os poderes demoníacos do
nosso interior.
O grau de
nosso progresso nas ciências tem de ser acompanhado de igual aprofundamento
interior e crescimento espiritual. Do contrário, cavar-se-á em nossa alma imenso vazio,
tremendo abismo que nos tornará imensamente infelizes. Por isso, autoeducação!
Assim o exigem
nosso ideal e as aspirações de nosso coração; exige-o nossa sociedade, os que
convivem conosco e especialmente aqueles com quem iremos realizar nossas
atividades futuras. Como sacerdotes precisamos exercer influência profunda e
eficaz em nosso ambiente. Haveremos de obtê-la não pelo fulgor de nossa
sabedoria, mas pela força e riqueza interna de nossa personalidade.
Precisamos
aprender a arte de educar-nos. Urge educar a nós mesmos e educar-nos com todas as nossas
capacidades, Mais tarde veremos quais são estas faculdades e qual o objeto
material de nossa autoeducação.
Temos de
educar-nos caracteres firmes, sólidos. Há muito tempo depusemos os «sapatos de
criança». Na infância, nossas disposições eram movidas por caprichos e
disposições emocionais. Agora, porém, cumpre agir por princípios firmes,
claramente reconhecidos. Tudo poderá vacilar em nós. Sobrevirão momentos de
vacilação total. Em tais ocasiões os exercícios religiosos não mais nos
auxiliarão. Uma coisa somente nos poderá valer: os nossos princípios. Urge
sermos caracteres firmes.
Devemos ser
caracteres livres. Deus não quer escravos de galera, mas remadores voluntários.
Arrastem-se os outros diante de seus superiores, para lamber-lhes os pés e
mesmo agradecer quando forem pisados. Nós estamos bem conscientes de nossa
dignidade e direitos. Acedemos à vontade de nossos superiores, não por medo ou
coação, mas porque livremente o queremos, pois todo ato de submissão razoável
nos torna interiormente livres e autônomos.
Queremos
colocar nossa autoeducação sob a proteção de Maria. Assim nós o prometemos domingo(5). Importa agora pôr mãos à obra. Temos grande tarefa a
realizar. Conforme os vossos estatutos, devemos cultivar a devoção a Maria, em
comunidade. Já possuímos os símbolos externos: a magnífica bandeira e a medalha
(6). Porém, ainda não chegamos à parte
principal: a organização interna, a exemplo das Congregações Marianas
conhecidas em diversos ginásios e universidades.
Tencionamos
criar essa organização. Nós — não eu. Neste sentido não farei nada,
absolutamente nada, sem vosso pleno consentimento. Não se trata dum trabalho
para o momento, mas de organização que sirva para todas as gerações futuras.
Vossos sucessores alimentar-se-ão de vosso zelo, de vosso conhecimento das
almas, de vossa prudência. Estou convicto de que seremos aptos para realizar
obra útil, se todos cooperarem.
Porém, a isto
ainda, não chegamos. Em primeiro lugar temos de conhecer-nos e acostumar-nos a
dialogar livremente conforme o grau de nossa cultura.
Com isto
concluo minha exposição. Com certeza compreendestes o motivo por que permaneci
tão reservado; conheceis também meus planos para o futuro. Iniciaremos e
concluiremos juntos a grande obra. Sob a proteção de Maria, queremos aprender a
educar-nos para sermos sólidos e livres caracteres sacerdotais. Queira o bom
Deus dar-nos a sua bênção para a realização deste objetivo. Amém.
(5) 20 de
outubro, festa da "Mater Puritatis" — Mãe da pureza.
(6) A
bandeira mencionada — doação da senhorita Duchene, de Limburgo — foi mais tarde
a bandeira da Congregação, diante da qual os congregados faziam o juramento de
fidelidade: "Esta é a bandeira que eu escolhi, jamais a abandonarei; a
ti,. Maria, o juro!" A medalha de Nossa Senhora entregue no dia 20 de
outubro foi substituída na Congregação por outra menor, que num lado apresenta
a imagem da Imaculada e no outro a de São Luís Gonzaga.
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